Capítulo 1

EUROPA — LONDRES — ÉPOCA ATUAL. O professor Archibald Smith, brilhante físico nuclear, vestiu-se elegantemente. Pôs a sua melhor roupa para aquele evento tão importante; diria que se preparava para o seu único, como também o último em sua vida. Olhou para o relógio-torre preso à parede e viu que eram quase vinte horas. Pegou um molho de chaves em cima da mesinha de cabeceira e colocou no bolso do sobretudo cinza-escuro. Dirigiu-se à porta de saída, mas estancou, repentinamente, de olhos fechados, depois se voltou e retornou pensativo até o escritório onde sentou-se pesadamente na poltrona de couro amarronzado e macio; mas sua mente estava vazia, como se fora sugada de todo o seu conhecimento naqueles últimos momentos. Esfregou o rosto com as duas mãos, ergueu-se como um boneco de mola e caminhou decidido para a porta e pelo caminho foi pegando o chapéu de abas e o cachecol preto de listras cinza. Colocou-os por precaução. O rádio havia anunciado durante o dia que a temperatura ia cair muito àquela noite. E realmente o ar gélido e cortante junto a uma chuva fria dominava toda a paisagem exterior.

O seu carro, um velho sedan, cor preta, ano 1964, de fabricação belga, encontrava-se estacionado bem em frente do portão. Entrou apressadamente dentro do veículo, acomodou-se, mas antes de enfiar a chave na ignição, ajeitou disfarçadamente o espelho interno e notou, bem afastado, um carro suspeito, semi-oculto na luz, deixando ver apenas a parte dianteira. Suas pupilas se dilataram denunciando um desespero íntimo diante àquela visão.

“— São eles!” — pensou, enquanto seu braço esquerdo se alongava automaticamente para o banco traseiro até tocar em algo áspero e volumoso. Emitiu um ruído seco na garganta que saiu por entre os lábios mais parecendo um sorriso de satisfação e seus olhos brilharam estranhamente.

“— Não daria a eles o prazer de escutar da sua boca o que pretendiam… Não revelaria nada, nem faria nada para prejudicar o plano divino…”

Àquela hora as ruas estavam vazias e silenciosas. A densa neblina que encontrava pela frente ocultava o veículo deixando apenas se escutar o barulho do motor acelerado. O professor Archibald Smith parecia não se importar com a própria vida. O carro avançou pelos cruzamentos numa velocidade constante até sair dos limites da cidade. Depois, seus olhos fixos na estrada só desviaram numa fração de segundos para identificar a placa retangular galvanizada pintada de azul com letras brancas, onde se lia: BRISTOL — 100 KM.

A partir daí, uma força hipnótica tomou conta dos seus pensamentos e sua atenção somente era desperta para as inúmeras placas indicativas na estrada, que iam reduzindo a distância para se chegar à cidade de Bristol: 70, 60. 50, 40, 30, 20, 10, 1 km…

O carro parou próximo a um bosque e os faróis foram desligados, mas o ronco do motor, deixado em ponto morto, mais parecia o som de um animal demoníaco perpetrando algo macabro. O professor Archibald Smith apoiou a cabeça no volante e ficou assim por um bocado de tempo… Cada vez que pensava no que fizera, era invadido por uma emoção descontrolada que sufocava na garganta e apertava cada vez mais o peito. Seus pensamentos perturbados não conseguiam atinar com clareza nenhuma outra solução que não fosse aquela à qual propusera o seu destino.

“— Não podia falar! Não podia revelar o que descobrira. Não era forte o suficiente para manter o segredo…”

E como se despertasse de um transe profundo, sua mão direita procurou o fecho da porta que se abriu. Então, saiu, olhou para os lados como se procurasse algo e viu apenas a escuridão bruxuleante ao redor. Arqueando o corpo para dentro do veículo, alcançou o volume que se encontrava no banco de trás, juntamente com uma lanterna que funcionou após ele dar duas batidas fortes com o corpo dela contra o estofamento. Aprumou-se do lado de fora e com a ajuda da luz da lanterna, percorreu com os olhos ao redor. Um brilho de satisfação surgiu em suas faces e um ligeiro sorriso se abriu nos lábios. Pegou o rolo de corda e se dirigiu para a traseira do mesmo, cauteloso e com atenção foi caminhando até parar diante de uma árvore frondosa e de tronco grosso a poucos metros. Serviria aos seus propósitos.

Pegou a ponta da corda e amarrou cuidadosamente ao redor da arvore. Observou a distância entre o seu carro e o tronco, depois analisou o volume de cordas aos seus pés, em seguida, fez um laço cuidadoso e testou se estava bem amarrada. Depois voltou em direção ao carro levando a outra ponta da corda. Tinha os passos lerdos e pesados. Desligou a lanterna, depositou-a no seu lugar anterior, ajeitou a sua roupa. Então pacientemente pegou a corda e  fez um laço digno de um carrasco; entrou, fechou a porta, colocou a corda no próprio pescoço e arrancou em alta velocidade.

O pequeno rolo de corda foi-se desenrolando rapidamente até se tornar tesa… E escutou-se um gemido seguido de um barulho seco, depois a buzina tocou sem parar por um rápido período e parou… O motor do veículo foi morrendo… E o silêncio voltou a reinar como antes…

 

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