Capítulo 97

ARANTES SE ENCONTRAVA NA PRAÇA observando, distraído, crianças num playground subindo para o interior da casinha de madeira e descendo pelo escorregador numa animação só, quando reparou a chegada dos carros. Conheceu de imediato, a figura de Carmen que se destacava dos demais pela cor dos seus cabelos e pelo seu estilo informal de vestir. Contrastava com tudo aquilo que se via ao redor. Mas sentiu-se bem em tê-la por perto. Uma sensação de bem-estar envolveu a ambos no instante em que se olharam nos olhos.

— Seu Palmiro, a sua carona para retornar à Gargaú acabou de chegar. — avisou Arantes indo em direção de Carmen. O barqueiro acompanhou-o um pouco afastado. Tinha muita desconfiança de gente que andava muito engravatada, de terno e de óculos escuros, mas a mulher que parecia ser a “chefa” tinha o ar de “gente boa”, apesar de perceber nela certa frieza no olhar. Por isso que manteve distância enquanto os dois conversavam.

— Você está bem? — foi a primeira pergunta que Carmen fez, não disfarçando a sua preocupação. — Que coisa estranha aconteceu com você…

Arantes não sabia se ela fizera uma pergunta ou um simples comentário, mas respondeu assim mesmo.

— Bem bem bem não estou realmente… Preferia estar em Rio de Janeiro a esta hora, mas poderia ser pior — disse e apontando para o barqueiro. — O Seu Palmiro… O barqueiro que veio comigo… Preciso de um grande favor…

— Vai querer que eu mande o seu amigo de volta… — ela adivinhou na certa.

— Ficarei eternamente agradecido a você por este obséquio… Creio que ele foi colocado nesse “imbróglio” por obra do acaso e antes que as coisas piorem, gostaria de vê-lo bem distante daqui…

— Ótimo! — disse Carmen sorrindo maliciosamente. — Vou pedir o Adelfo para providenciar que o seu amigo chegue são e salvo ao destino dele…

— Mas antes ele tem que resolver o que fazer com o barco dele…

— Barco? — Carmen espantou-se com aquela novidade. — Que barco? Não vai me dizer que…?

— Viemos com barco e tudo! — esclareceu Arantes.

— Tudo bem… Assim que ele decidir voltar, basta dizer… Mas Arantes, preciso saber dos detalhes desta viagem… — frisou enfática, dando a entender que mais tarde cobraria aquela informação. Naquele momento tinha outras preocupações pendentes. Deixou o barqueiro sob a responsabilidade de Adelfo, que não gostou nada daquela tarefa, porém procurou resolver o mais depressa possível, deixando dois soldados cuidando do caso.

Carmen e Arantes se afastaram para um jardim coberto de árvores e com mesas e bancos de pedras, um pouco mais abaixo. Ela estava curiosa a respeito da viagem dele, contudo ele parecia indiferente ou tinha outra intenção em mente, pois estava mais interessado com a leitura do minidisco.

— O que você leu mais a respeito dessa situação no minidisco?

— Arantes, das nossas conversas anteriores, eu disse que a Agenda Messiânica precisava ser adiantada e que, com certeza, eventos ilógicos passariam a ocorrer na medida em que a data principal fosse se aproximando… — esclareceu Carmen. — Para nós, reles mortais, o nosso tempo é muito lerdo e vivemos paulatinamente cada minuto de nosso tempo, como se o mesmo durasse uma eternidade, acontece que para outros seres esse nosso tempo é insignificante e, vivendo em outra realidade, estabelecem suas prioridades, independente das consequências que possamos sofrer, tanto físicas quanto mentais. E isso que está acontecendo tem uma justificativa: o despertar de Stella para se cumprir uma antiga profecia messiânica, ou bíblica, tão bem maquiada no livro do Apocalipse!

— Está se referindo à vinda da Besta?

— Besta… — murmurou Carmem ironicamente. Ela não conseguia acreditar como um ser tão poderoso deixara-se manipular por tão pouco… Mas, por outro lado, tinha o seu melhor exemplo na sociedade onde vivia, na qual a própria mulher, geradora dos filhos e, deixava-se ser manipulada, usada, tratada como escrava e a viver numa eterna luta por aquilo que já lhe pertencia por direito. A mulher resumira-se a uma nulidade total na maioria das sociedades humanas. Via uma discrepância naquilo tudo: por um lado observava o crescimento exponencial de um culto a uma Deusa, em caráter espiritual; e do outro, pelo aspecto material, o decrescimento da mulher pelos próprios seres que admiravam a Deusa.

Do jardim onde se encontravam podia ver a outra margem do rio e a movimentação de barcos e pescadores que iam ou vinham em direção ao local em que estavam. Próximo a eles existia uma rampa por onde subiam e desciam carregadores levando cargas para os barcos ou trazendo engradados de frutas, legumes e peixes. De repente um homem se destacou da multidão e veio na direção deles. Carmen observou-o, curiosa. Não parecia ser da região. Era alto, tinha cabelos escuros e longos, rosto modelado, olhos castanhos e pequenos… Era mestiço. Trazia entre os dedos da mão direita um papel dobrado, antes de chegar ergueu o braço e apontou para Arantes que estava de costas, indicando que o bilhete era para ser entregue a ele. Carmen assentiu com a cabeça, deixando-o se aproximar, mas enfiou a mão esquerda por dentro do casaco e sentiu o cabo da sua pistola pronta para qualquer surpresa por parte daquele estranho que se aproximou demonstrando que viera em paz.

T’ereîkokatu… nde ko’ema… Ixé Apoena.[1]

Apoena… Peró nhe’enga rupi enhe’enga?[2] — perguntou Carmen de supetão. O mestiço foi tomado de surpresa ao ver aquela mulher de cabelos vermelhos falar com ele em Tupi Antigo. Até Arantes surpreendeu-se também e olhou para o homem parado ao seu lado, com o bilhete na mão e esperando pela resposta.

A’ekatu.[3]

— Auîebé… Apoena… Mba’epe ereîpotar?[4]

O mestiço entregou o bilhete às mãos de Arantes. Antes de partir, apenas disse olhando para Carmen:

— Aîebýryne[5]

— Erimba’epe?[6]

Amõ oîrandé, ko’eme[7] — respondeu e se afastou, desaparecendo no meio da multidão que subia e descia do ancoradouro.

Arantes estava sem entender “patavinas” do que aconteceu ali. Foi uma situação tão rápida que a única coisa que fazia sentido naquele momento era o conteúdo do bilhete que acabara de ler e a letra que havia reconhecido.

— Você conversou com o nativo em que língua? — indagou para satisfazer a sua curiosidade. Sabia que ela falava diversos idiomas, mas conversar com um índio era outros quinhentos! — Isso faz parte dos ensinamentos da S.O.R.U.?

— Língua tupi. — justificou-se como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Você não sabe como a língua tupi é importante para a cultura do seu país. Pode lhe parecer estranho, mas a maioria dos agentes fala o tupi antigo ou o nheengatu. Somente assim é que conseguimos obter informações claras e precisas sobre as atividades alienígenas… Conversando diretamente com os índios…

— E como vocês fazem isso? — Arantes ainda estava incrédulo com tudo aquilo. As coisas eram muito mais profundas do que podia imaginar.

— Muitos soldados, alguns armigens, diversos cobridores fazem parte das centenas de ONGs espalhadas pela Amazônia… Todos coletam dados que são levados para a Europa, onde fica o nosso escritório científico, mas o próprio Grão Mestre determina o que deve ser feito com as informações mais relevantes.

— Vocês patrocinam essas ONGS?

— Só as que nos interessam… uma grande parte vive da biopirataria… A propósito… — disse Carmen desconversando. — O mestiço disse que volta em dois dias para nos buscar.

— Por que ele não falou em português?

— Eu até perguntei e ele disse que falava, mas acho que ficou maravilhado comigo e com o meu charme… — disse Carmen cheia de trejeitos e brincalhona. — O que está escrito no bilhete?

Arantes deu a ela o papel para ler.

— Você vai? — perguntou relendo a mensagem à meia voz: “Arantes, o portador deste bilhete é de minha inteira confiança. Ele virá trazê-lo até mim. Stella”. Aquela pergunta era desnecessária, pois, em se tratando de Stella, ele perdia a noção da razão. Seria inútil argumentar com ele que bem poderia ser uma armadilha de Eduardo e Mônica.

— Claro que vou… Tenho curiosidade de saber até onde isso vai dar, além do que prometi ao Rômulo que cuidaria de Stella… Devo ter sido trazido para este lugar para algum objetivo.

—E como você vai? — ela se referia a como ele iria vestido. — Assim? De camisa social, calça jeans e sapatos comuns? Saiba que para entrar na Selva Amazônica você tem que estar preparado… Tomar injeções contra malária, picadas de insetos… Além de equipamentos próprios para esta empreitada, alimentos… Meu querido, vamos levar pelo menos uma semana para organizar tudo… E ainda, qual a certeza que você tem de que não estamos indo cair numa emboscada? — argumentou Carmen incluindo-se também naquele convite.

— Você leu bem o que estava escrito no bilhete?

— Li, mas não vou deixá-lo entrar nessa floresta, sozinho… — foi enfática e decidida.

Arantes sabia que não iria convencê-la ao contrário. Na verdade até preferia que fosse assim. Duas cabeças pensavam melhor do que uma… Tinha algo a considerar e a reconhecer: Carmen era um gênio em se tratando de pensar e possuía lá suas experiências como agente da S.O.R.U. Apesar de ter toda confiança em Stella, não podia se aventurar sozinho no meio da mata… Seria muita imprudência da parte dele.


[1] — Trad.Tupi Antigo — Salve… Bom dia! Eu sou Apoena.

[2] — Trad. Tupi Antigo: — Você fala português?

[3] — Trad. Tupi Antigo — Eu falo português.

[4] — Trad. Tupi Antigo: — Pois bem… Apoena… O que quer?

[5] — Trad. Tupi Antigo: — Eu voltarei…

[6] — Trad. Tupi Antigo: — Quando?

[7] — Trad. Tupi Antigo: — Depois de amanhã, pela manhã.

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