Capítulo 56

DOMINADO PELAS PALAVRAS enfeitiçadoras de Carmen que se tornavam cada vez mais interessantes e reveladoras, Arantes estava tomado de uma indecisão terrível.

— Precisava voltar para casa, tomar um banho, trocar de roupa… Pensar na vida ― desculpou-se diante da confusão mental a que se acometera, mas ela respondeu no ato, e foi tão atrevida que até sugeriu-lhe que trouxesse um par de calças, camisas, meias, etc, e deixasse tudo guardado no apartamento dela. Mas um desânimo lhe abatia o espírito por completo, uma sensação muito estranha que ainda não conseguira atinar bem o que era. Por conta disso mostrava-se cativado pela fascinante pela lucidez de Carmen. Sua mente era algo por demais brilhante! Lembrava-se de detalhes e enredava tudo num liame só, buscando a clareza e a simplicidade em cada frase para que ele pudesse compreender, sem atropelar os fatos. Havia um mistério que precisava descobrir… E também aquela sensação esquisita, como um sexto sentido, começava a se esclarecer dentro de si. Pressentia que ia resolvê-la dentro do tempo certo, sem muita pressa.

— Em qual idioma foram transcritas as informações? — perguntou Arantes se lembrando dos problemas que tivera. — Como uma mídia que tem mais de cento e cinquenta mil anos pode estar tão atualizada com a tecnologia atual?

Carmen fitou-o com uma expressão de dúvidas.

— Isso é uma coisa para a qual eu também não tenho explicação — respondeu Carmen. — Mas quando você me entregou o minidisco e o coloquei no seu notebook, tive algumas complicações iniciais, mas consegui fazer uma leitura, mesmo com as mais de 3000 páginas de “lixo” abertas no editor de texto. Não sei o tipo de programa em que foi desenvolvido o minidisco, mas depois, tão logo eu o coloquei no “nosso” computador (ela referia-se àquela máquina escondida no quarto de empregada), o minidisco foi ativado em português. Ao que me parece, deve existir algum software embutido, que fez a leitura imediata da configuração idiomática instalada na máquina. A abertura também se tornou automática… após o meu acesso por um número de vezes que não estou lembrada.

— Você descobriu, pelo menos, o tipo da escrita original? — Arantes não se conformava em possuir uma relíquia altamente sofisticada e ser ludibriado por ela e pelo excesso de informações existentes.

Carmen pensou um pouquinho e deu um sorriso de satisfação.

— Sabe, às vezes, procuro não guardar em minha mente informações supérfluas, mas não é que você me fez lembrar-se de alguns dados muito interessantes! — revelou Carmen observando os olhos de Arantes se encherem de curiosidade como os de uma criança travessa — No meu primeiro acesso ao disco surgiram algumas inscrições iniciais que, possivelmente, pudessem ser o que alguns textos sumérios e acadianos chamam de ‘Kitab Ilani’, ou seja, a Escrita dos Deuses, depois apareceram textos numa escrita de caracteres desconhecidos cuja leitura pareceu-me completamente incompreensível… No segundo acesso, o texto havia se modificado para uma escrita cuneiforme, não era sumeriana, mas uma evolução… Da terceira vez, reconheci os desenhos… Eram hieróglifos! Aí, o computador deu pane, travou, mas eu notei que na tela do monitor apareceu uma sequência de letras e números que subiam da direita para a esquerda e vice e versa, em diversos idiomas. Isso durou quase uns 20 minutos, até que a própria máquina deu “reset” e reinicializou sozinha… Não tive mais nenhum problema de configuração.

— Uma inteligência artificial — murmurou Arantes concluindo para si mesmo. Só podia ser. — O que você já conseguiu ler?

— Muitas coisas das quais gostaria de não saber… Tenho de enviar um relatório das minhas atividades no Brasil à S.O.R.U., mas estou muito apreensiva sobre como os meus superiores irão reagir ao que irão ler…

— Como assim?

— Agora, Arantes, temo em contar para você até o que já li e colocar em risco a sua vida… — avisou Carmen, receosa. — Se mais para frente você esbarrar com Eduardo ou Mônica, não sei o que eles poderão fazer para lhe arrancar informações… Ainda mais se descobrirem que você tem a posse do minidisco.

Arantes estremeceu diante daquela possibilidade aterradora. Precisava tomar muito cuidado… Mas por outro lado, não podia deixar de saber da verdade… Chegara até ali e poderia ir um pouco mais adiante. Não sabia ainda até onde, mas arriscaria…

— Carmen, ainda há pouco tive uma sensação muito esquisita e não sabia o que era que estava me incomodando, mas de repente, descobri o porquê — disse Arantes cheio de suspense. ― Mas uma pergunta que surgiu e não sai da minha mente: Por que você não pegou o minidisco e fugiu?

Aquela pergunta não a pegou de surpresa, não a deixou nem um pouco constrangida; tinha bastante fundamento. Já havia pensado naquela hipótese, contudo chegara a uma conclusão estarrecedora: Não iria mudar em nada o que já estava determinado… Fazia milhares e milhares de anos que tudo seguia um ciclo existencial bem elaborado. Tomar conhecimento de tudo o que fora previamente preparado só traria mais sofrimento e dor àquele mundo no qual vivia. Tudo o que estava para acontecer, aconteceria… Irremediavelmente! A “Agenda Messiânica” não podia ser impedida… A leitura do “Enigma da Serpente” era circunstancial, premonitório… O que muitos acreditavam e teorizavam sobre a influência do passado e do presente no futuro poderia ser uma farsa; a manipulação da mente no mais profundo dos seus mecanismos através de alterações bioquímicas da consciência, por inteligências extragalácticas muito superioras, já havia definido e traçado os caminhos da espécie humana. Raça… A denominação de raça era apenas para confundir, perturbar o legado e criar conflitos em prol de um objetivo muito confuso ainda. Mas de uma coisa tinha a mais absoluta certeza, o minidisco em mãos erradas poderia mudar o curso da História da Humanidade… Ou não!

— Ainda não estou preparada para dar a você uma resposta… ― foi a desculpa que encontrou de imediato para satisfazer Arantes. ― Mas, digamos que ele está mais seguro onde se encontra agora.

Arantes se ajeitou na cadeira.

— O que você tem a me dizer sobre o que já leu, então? O que está escondendo de mim?

— Sabe quando lhe contei a respeito da Klävkla? — Carmen esperava que Arantes se lembrasse. — Ser reptiliano… Filha dos deuses…

— Sei — respondeu Arantes. — E que você mesma disse que era tudo falso.

— A história a respeito da implantação de microchips, sim, a Klävkla, não — disse Carmen. — Ela, uma verdadeira Anunnaki, existe e a sua natureza prevaleceu até à época atual.

Agora que Arantes não compreendia nada mesmo. Mas resolveu apenas perguntar:

— E alguém sabe quem é? — indagou curioso.

— Não vi nenhum nome nos documentos… Nem ao menos uma referência — respondeu Carmen tentando imaginar o que pensava Arantes.

— Muito interessante!

— Muito… A Bíblia fala no Gênesis que “os Filhos dos Deuses”, vendo que as “Filhas dos Homens” eram formosas, tomaram-nas para si… E assim os Filhos dos Deuses acasalaram com a Filha dos Homens possibilitando o povoamento de um mundo que sempre acreditou na crença da Deusa Mãe e, muitas deusas eram adoradas e mantinha a acesa a chama da sua criação. Mas quando o domínio da sociedade patriarcal se elevou, procurou exterminar de uma vez por todas, com as referências a esse culto pagão, entretanto, veja a ironia do destino.

― Como assim ironia do destino?

― Se você perceber a única religião que se preocupou em perverter o culto da Divina Mãe foi a religião católica… Que por conta de uma obra intitulada: “Malleus Maleficarum” ou “O Martelo das Feiticeiras”, inscrita em 1484, a Inquisição, durante 4 séculos saiu à caça das bruxas por toda a Europa, e segundo cálculos da escritora Marilyn French, em seu livro “Beyond Power”, foram mais de 100 mil mulheres queimadas vivas na fogueira, por conta de acabar de vez, com a heresia, ou seja, a adoração da Divina Mãe dos ritos antigos.

― Isso eu já sei… Mas onde está a ironia do destino? ― Arantes já estava ficando aborrecido, por ela ter mudado de assunto, assim tão de repente.

― Calma, meu querido… Vamos retroceder a história para o ano de 754, quando o então imperador Constantino V estipulou o culto obrigatório de Maria, e “proibiu” a entrada ao céu de todo aquele “que não reconheça que a eterna e sagrada Virgem é sincera e justamente a Mãe de Deus, superior a qualquer criatura visível ou invisível e com sincera Fé não busque sua intersecção como alguém que confia em seu acesso a Deus”.

― Uma confusão dos diabos! Quer dizer, como a Igreja como ficou nessa?

― Não ficou… Naquela época, como não existia, nem existe nenhuma prova que justificassem a pureza da Virgem ou a sua ascensão ao céu, durante séculos a Igreja não aprovou oficialmente essa doutrina, e por conta dessa malfadada adoração, um período negro se instalou por toda a Europa: As Cruzadas, a Inquisição, depois Editos e Bulas Papais, buscavam ascender o Criador ao seu lugar de honra — o patamar do patriarcado machista e dominador — tal situação provocou a maior mortandade de seres humanos da qual se tem conhecimento na história da humanidade, mas finalmente, a Igreja teve que dar o braço a torcer e aceitar o culto à mesma Deusa pagã que abominaram e, até por pressão e exigência estratégica convenientemente elaborada foi entronada nos ritos ecumênicos, com toda a pomba e marketing, que se fazia jus. E através da Bula Ineffabilis Deus de 1854, Pio IX declarou a definição oficial do dogma da Imaculada Conceição Maria, ao perceber o quanto de oportunidade financeira poderiam usufruir com o crescimento exponencial dos seus fiéis. E aquilo que execravam estava se alastrando de forma contumaz e silenciosa, infiltrando-se dentro de suas bases dogmáticas… E virando artigo de Fé. Por pressão dos fiéis, em 1950 o Papa Pio XII, baixa uma resolução, como consequência direta de uma petição firmada por mais de 8 milhões de fiéis, ascendendo Maria. Em 1954 nomeou oficialmente Maria “Rainha dos Céus”, aliás, foi mais uma jogada política-religiosa da Igreja, já que se tratava de uma Deusa que sempre recebeu esse título desde que o ser humano tomou consciência da sua própria existência.

― E qual o fim?

― Poderes seculares alienadores ― cujas origens remontam de uma antiga Irmandade da Serpente ― corrompidos e sedentos do poder, se tornaram eficazes manipuladores de mensagens religiosas fundamentalistas, através do cristianismo, do judaísmo e do islamismo. São elementos hostis que sempre visaram o controle da raça humana, mas com o surgimento desta nova doutrina religiosa, o culto a Deusa Mãe, ficariam definitivamente comprometidos e, digamos que se veria o princípio do fim dessas religiões como as entendemos…

― Isso quer dizer que as bruxas estarão vingadas! ― brincou Arantes.

Carmem sorriu por aquela alegação jocosa, mas tão verdadeira.

― Mas quando isso tudo poderá acontecer? ― indagou Arantes mostrando uma curiosidade quase petulante. ― Como renascera o culto mundialmente como uma nova religião?

― Aí é que está o segredo guardado por mais de 300 mil anos e que jamais foi revelado, mantem-se dissimulado de tal maneira que nunca despertou nenhum interesse das hostes inimigas. A própria “Agenda Messiânica” foi elaborada de modo que esse mistério fosse velado e cauterizado da mente humana. Somente alguns escolhidos que fazem parte de um Círculo Esotérico denominado “Conselho dos 12” e mantêm contatos com os Anunnaki é que conhecem a verdade.

― Mas os Anunnaki não morreram?

― Não… Um ciclo de 3.600 anos terrestres equivale a 1 ano para esses seres que permanecem em bases subterrâneas ou convivem junto aos humanos, utilizando métodos de indução mental, para que não os possam ver como realmente são. Mas aos olhos dos humanos parecem imortais.

― Diga-me: o Rômulo foi um iniciado no Círculo Esotérico?

― Tenho a impressão que foi mais do que isso, não tenho muita certeza disso ― confessou Carmen meio na dúvida. ― Durante quase 40 anos ele foi um dedicado guardião, mas teve sua morte decretada por algum motivo… Também não sei se foram eles quem mandou matá-lo… — desculpou-se, também não pretendia colocar em ‘cheque’ aquela questão, ou criar mais dúvidas na cabeça de Arantes.

― Mas ele não me revelou nada, se esse foi o motivo, apenas me repassou o minidisco com recomendação bastante taxativa, para ler o conteúdo somente em minha casa. ― justificou Arantes na defensiva. — Você, o Smith e o Adelfo me abriram os horizontes com todas essas informações… E para dizer a verdade, até hoje estou procurando uma junção em tudo isso…

Carmen sorriu novamente. Arantes sabia como disfarçar bem. Era inteligente e bastante perspicaz.

― Pois é…

— Mas… E a Klävkla? — perguntou lembrando-se que mais uma vez a conversa tinha mudado de rumo.

— Segundo consta, é o “xis” da questão — disse Carmen. — A “Agenda Messiânica” segue um planejamento, mas à deriva. Por que disso? Ela mantém um rígido e sistemático conjunto de ações… Pratica e estimula os mais variados atos de vandalismo pelo mundo na esperança de encontrá-la, pois ela é a chave.

Arantes estava abismado com aquela revelação.

— Então isso significa que a humanidade está sujeita ao desequilíbrio, à instabilidade por conta do despertar da Bela Adormecida? ― ironizou Arantes, abismado com aquela situação. ― Quer dizer que neste mundo, qualquer um de nós, está propenso a ser submetido ao ato covarde de algum louco… ― não era uma interrogação apenas um desabafo que confirmava a horrível e descabida conclusão a que chegara.

Carmen nem refutou, apenas balançou taxativa a cabeça confirmando suas palavras. Compreendia perfeitamente o que Arantes dizia. Também tinha a certeza de que cada vez mais aumentariam os desníveis emocionais entre as pessoas com a aproximação da segunda década em diante. O mundo se veria na mais terrível guerra “sem causa justa”, caso Mhæryie-ghon não se revelasse até então. Ela estremeceu ao pensar aquele nome… Não sabia por que ele viera à mente tão repentino.

Arantes não entendia todo aquele silêncio mantido por Carmen mediante ao que ela mesma expunha.

― O mundo gira ao redor desta figura, não? ― indagou Arantes pesaroso, mas querendo escutar da sua boca a confirmação, como se não houvesse mais alternativa.

Carmen levou um susto ao constatar que seus pensamentos se mesclavam aos dele naquela mesma conclusão. Fatidicamente não gostava de pensar naquela possibilidade sem aventar o futuro negro que se assomava para o planeta.

— Girar não gira… Ainda não completamente… Parece-me que foram tantos milênios de ocultação, acobertamento que a energia ficou fraca, mas aos poucos essa mesma força enfraquecida irá despertando e com isso, libertando-se dos laços humanos e… E tudo pode acontecer… ― disse Carmen cheia de suspense. Ela mesma não tinha muita certeza daquilo que dizia. Tudo era muito estranho… ― Mas tenho para mim que, quanto mais rápido girar, melhor será para a humanidade. — finalizou observando a expressão de descrédito estampada no rosto de Arantes.

— Um pressentimento ou viu isso escrito em algum lugar? — perguntou incisivo, pois ele mesmo gostaria de ter certeza para não ser tomado de surpresa. Temia pelas implicações e pelos resultados que poderiam advir daquilo tudo.

— Mais ou menos isso… — Carmen divagava. As imagens corriam frenéticas dentro da sua mente visualizando algumas partes dos documentos, numa escrita alienígena que ia se recompondo em caracteres latinos. As palavras, letra por letra, iam surgindo diante de seus olhos e acumulando em seu cérebro num torvelinho de informações aterrorizantes e devastadoras… Tinha dúvidas quanto ao que dizer para Arantes sobre tudo o que estava lendo… Mas ele confiava plenamente nela… Não podia se negar… Acabaria se aborrecendo e agindo de maneira intempestiva… ― Vamos para um lugar bem agradável, neste final de semana… Um lugar onde possamos conversar longe do tumulto e da visão da cidade… ― sugeriu Carmen com uma voz doce e melodiosa, mas muito convincente.

Pelas feições de Arantes percebeu-se logo que apreciara aquela sugestão.

― Gostei da ideia… Estou precisando mesmo de um descanso… ― disse Arantes mais animado e pensando num local onde poderiam ir. ― Vamos pensar nisso com mais carinho… Mas você me deve muitas explicações ― concluiu dando por encerrada aquela conversa.

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